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Umas Palavras

Umas Palavras

Fevereiro 28, 2020

Beatriz

     Por vezes quando pensamos que o mundo está todo errado, ou tudo contra nós, talvez devamos supor estarmos errados. Nesses momentos, olho para dentro de mim, como para dentro de uma casa através de janelas de vidro fosco. Vejo-me despir a couraça, que simultaneamente me protege e me crucifica, mas por trás dela haverá sempre outra. E outra. São pedaços espúrios da personalidade que exigem distância da consciência. E por isso, à medida que me vou despindo, entre as luzes que se apagam, torna-se exígua a capacidade de ver o que realmente estará dentro daquela casa. Eu? Pedaços de mim? Então eis que escurece e a paisagem morre com o resto. No escuro nada existe. Um pavor sonâmbulo gela-me o corpo, enquanto me estilhaço em pedaços por toda a desértica negridão do espaço envolvente, consequência derivada de toda esta profanação interna. "Não, não devias ter olhado outra vez para o abismo." Eis então que uma luz se acende e posso ver-me fora de mim: o que vejo nunca sei ao certo. Parecem ser várias almas minhas que se juntam na árdua tarefa de colar todos os pedacinhos espalhados pelo chão do quarto. Como se... passado, presente e futuro se unissem para reparar o estrago. Então percebi... que o abismo não deve ser nunca encarado de frente. Quando olhamos para ele, ele olha para nós.
     Afinal não era o mundo que estava errado.

Tito Merello Vilar (@titomerello).jpg

 

Setembro 12, 2018

Beatriz

Tudo tem a sua essência,
Espasmos da verdade desejada,
Confirmação de uma realidade alcançada,
Factos como corpos desnudados
E ausência de efémeras palavras,
Tão somente o destino prenunciado,
Na convicção de ter-Te p'ra sempre
E eu saberia por certo amar-Te
Ontem, hoje e amanhã ou, na impossibilidade
De existir um infinito maior que o infinito,
Fosse, pelo menos, enquanto os deuses o quisessem.
 
E aquilo que hoje te declaro é grito,
Consistência e realidade germinadas de um mito
Que da inexistência se tornou permanência
E que se insiste, persiste e se reconstrói
Em cada detalhe teu, em cada detalhe meu,
No desejo infindável de que se fortaleça 
Na mesma vontade e o mesmo anseio
Que do meu coração grita por "nós".
 
Assim, no défice de palavras que ficam por dizer,
Declaro-te com a força incomensurável,
Com a determinação e o respeito implacável,
A admiração e o orgulho que, por ti, em mim consegue existir.

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Agosto 28, 2018

Beatriz

    Escrevo porque as fontes jorram água. Destrinço sentimentos e olhares sobre este mundo numa espécie de conjuração das minhas emoções sobre a minha racionalidade. Uso-me dela para fazer jorrar as ditas palavras, para que fluam, depois de criadas na nascente do meu ser, tal e qual águas que irrompem de uma fonte, para o papel sobre a forma de visão coerente ou incoerente desta vida. Então, escrevo porque os rios correm. Inevitavelmente, porque às leis da gravidade me submeto, faço desaguar o que os meus olhos vêem e o que a minha pele sente no papel, assim como, pelos mesmos princípios, o rio desagua no mar. Por isso, escrevo porque o mar e os rios existem. Se não existissem, eu não seria, de modo algum, guia das minhas palavras, pois o único dono delas é o mundo que existe para que eu exista e o transforme pelas leis, não da física, mas da subjetividade. Assim, quando fotografo o mundo, estou a captar a minha essência. E quando escrevo, estou a captar o mundo, através da minha essência. É nesta narrativa que me transformo e integro o mundo no meu universo.

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Agosto 21, 2018

Beatriz

      "Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido. Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nas cartas que trocaremos. Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Até que os dias vão passar, meses...anos... até este contacto se tornar cada vez mais raro. Vamo-nos perder no tempo...
Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão: "Quem são aquelas pessoas?" Diremos...que eram nossos amigos e… isso vai doer tanto! " Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!" A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo. E, entre lágrimas abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes desde aquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida te passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

Fernando Pessoa

Agosto 13, 2018

Beatriz

     A menina que eu vira hoje sentada à beira-mar tinha uns olhos castanhos invulgares. Era uma cor selvagem e trazia em si desenhado o reflexo do azul do mar e do verde das algas que pegava com as mãos, sujas da terra e da areia. A rapariga não era ninguém em especial, era tão somente mais um alguém de carne e osso, sangue cor escarlate, mortal tal que todos os outros seres vivos... Era igual a tantos outros da sua idade e, porém, numa contradição absurda, uma rapariga invulgarmente diferente. Ela sabia-o, mas não compreendia. Perguntava-se imensas vezes o porquê de as coisas terem que ser assim... E olhava, enquanto meditava, o mar, fitando, na negridão da sua compreensão, o horizonte, quando o incorpóreo céu se cruza com o mar concreto... Na beira-mar as ondas eram demasiado pequenas e rebentavam como a força de uma criança mas mais à frente, cerca do recife de corais, as ondas eram enormes e rebentavam tal e qual força da natureza que são. A rapariga olhava o mar, fitava o horizonte e era incapaz de entender tanta coisa que lhe passava pela cabeça. Diariamente, de dentro de si, brotavam seres de diferentes formas e feitios, brigando, sem dó nem piedade pela emersão ao supremo ser, numa rixa sem fim à vista. E o rapariga incompreendia-se... Sabia, conquanto, que aquilo que podia compreender eram as rasteiras ondas que se aniquilavam na areia à beira-mar, e que aquilo que não podia compreender, o que de mais forte suprimia no seu íntimo, porém, alcançável à sua compreensão, eram as ondas que rebentavam com a força da sua essência nas rochas e nos corais. Havia, ainda, aquilo que não estava ao seu alcance, aquilo que a sua mente e as suas almas podremente escondiam do monstro pensante - o céu. Assim, aquelas almas de estranha matéria irrompiam pelas lacunas do psíquico, rasgando a carne e dilacerando o coração, metamorfoseando-o na sua quase totalidade... Amanhã, certamente, o lugar será usurpado e, do seu íntimo, irromperá uma nova personagem, com outra sede de viver, e novas forças serão criadas, como se essa seja a razão da sua inesgotável fonte de energia, como se o facto de não existir, somente em si, mas em conexo com todas as personagens e realidades que procria em si, seja o facto - negro facto - do seu alento e das suas infindáveis perguntas e incompreensões, da sua inesgotável e complexa força interior, como aquelas ondas que, incessante e estupramente, rebentavam nos corais. Ou talvez fosse a sua prisão...

     O rapariga de olhos castanhos selvagens fitava o horizonte, "calmo e sereno", dizia quem passava. Mas os pescadores, por conhecerem de que matéria era feita o mar e por saberem que a rapariga se regia pelas mesmas leis do mar, sabiam que dentro dela, as mais fortes tempestades rebentavam debaixo de um negro céu de nuvens.

Agosto 09, 2018

Beatriz

   Queres saber que mais ? Às vezes penso que falar contigo é o mesmo que falar com as paredes e que a minha existência é-te igual às moscas. Sempre fiz questão de nunca mudar aquilo que sou para te agradar, não o fiz por ti e não o faria por ninguém, pois vai contra a minha essência, embora não esconda que gostava imenso de saber que não valho as sobras que pareço às vezes valer para ti. Já lá vai o tempo em que oferecias, de vez em quando, palavras que eram chocolates degustados por mim. Por não serem constantes, como o é na maioria das relações, tinham outro sabor, eu confesso. E reconheço de igual modo que essas doces palavras com que me brindavas uma vez por outra me fazem imensa falta...

   Mas já lá vai o tempo, meu amor. E agora ? Eu sei lá o que é que se passa agora que revivo momentos tão patéticos e ainda assim tão intensos para que um só coração as suporte... Seria hipócrita da minha parte dizer que já estou vacinado contra isto, pois de amor que é verdadeiro nunca se está vacinado. Continuo ao sabor das incertezas, num mar revolto de sentimentos, seja lá o que isto for... Talvez tenha mesmo tudo mudado... Fugiram-nos os ávidos desejos e as inúteis promessas, os sorrisos que eu te desenhava na cara e as gargalhadas que juntos pintávamos em tantas brincadeiras que se fizeram telas em tempos áureos, como duas crianças que brincavam com os sentimentos, como se fossem brinquedos. Mas não eram... não os meus. E soltaram-se as palavras e o silêncio, as mãos e os gritos que o peito calava no sabor de um beijo e de mil e um olhares trocados. (Oh sim, os olhares que não foram trocados...) Acabaram-se os subterfúgios, as desculpas e as justificações e secaram as palavras; sinto falta, juro que sim, de quando me dizias que eu era só teu e tu minha. No fundo, no meio de tanto disparate despropositado - pois sei quem nem isto vais acabar por ler -, o que eu estou a querer dizer é que, neste preciso momento, o que eu mais absurdamente desejava era que me ligasses e me gritasses aos ouvidos que queres 'ficar comigo para sempre', daquelas vulgares intimações que se dizem quando se está perdidamente apaixonado, mas que ainda assim sabem bem de ouvir.

   Meu amor... Às vezes apetece-me apanhar um avião, chegar ao pé de ti e agarrar-te pelos braços, abanar-te para que me ouvisses e depois, na plenitude da minha voz, gritar pela minha alma que te amo! Queria que o meu grito se ouvisse em todo o mundo e que o seu eco se repetisse vezes sem conta até que toda a gente soubesse que te amei, te amo e te quero como mais ninguém neste momento. Depois de olhar uma última vez para os teus olhos cor de peixe verdes-azulados, meu amor, viraria costas e apagar-te-ia como um cigarro, mas sei que tu... és vício que não se apaga. Meu amor, eu chamar-te-ia pelo teu nome, mas não sei mais quem és, pois te formas a meus olhos como reflexo do meu ser, ainda que para ti... eu seja apenas uma sombra da tua existência.

   

   PS: Quando estiver lua cheia, tão somente quando estiver lua cheia, sai à rua e estende a tua mão: lembra-te que te a dei.

 

 
 
  Mal acabou de escrever a carta, meteu-a numa garrafa e selou-a com uma rolha, para que a mensagem chegasse onde tinha que chegar. Atirou, por fim, a garrafa ao mar e deixou que a mesma fosse levada pelas correntes. Se tivesse que chegar ao seu destino, chegaria.

 

Continua.

 

 

 

Agosto 06, 2018

Beatriz

Fossem os rostos metades da mesma lua,
Fosse minha metade, meia corpulência que é Tua,
Fosse o Teu amor o nome da minha rua
E o par de dois o número da minha porta,
 
Fosse o teu sorriso melodia
E esse teu terno olhar um vislumbre
Do que os Deuses me pudessem ofertar, em deslumbre,
Dum coração que vive em contínua nostalgia,
 
Fossem todos os dias como os que estou contigo
E as ausências apenas inexistentes por não conseguir
Suportar, pois, a incerteza de não te ter comigo,
A dor e o medo de te ver partir e deixar de te sentir,
 
Fossem os abraços revividos, as palavras não caladas,
Fossem as cores reflexo e o Universo tamanho,
As músicas e a tua voz o meu sustento
Na certeza de nos termos em permanente alento,
 
Fossem estes, prenúncios do futuro,
Verdadeiras matrizes da profecia,
Melodias do encanto e da poesia
Como ter em mim o esplendor,
O sonho e a quimérica proficiência
De reinventar Contigo o verdadeiro amor...
 

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                                                              Imagem Pinterest

 

 

Agosto 01, 2018

Beatriz

    Descomplicar é a palavra que escolhi para este mês. Há pequenos paradoxos que enchem os dias de certezas felizes, como agradecer. Agradecer de ter acordado tempestades cá dentro e sentir uma inenarrável bonança. Nunca encontraremos conforto no que não nos faz felizes. Tudo está certo. Tudo tem o seu tempo e tudo passa. Tudo está como deve estar. 

    Descomplicar a vida pelo lado de dentro é a melhor bússola para ser feliz. 

'' Seja em tuas obras, como és em teus pensamentos." (Sabedoria Egípcia - Arcano I)

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Julho 31, 2018

Beatriz

   Quiseram, os deuses inventar a rotina. Enfadonha e inoportuna, propaga-se mal fecheis, à vida, os teus olhos. Há, porém, doenças piores que a rotina. A mera existência torna-se a pior das doenças, na ausência perpétua do sentir e do viver. Existir é o que fazem as paredes, e eu, certamente, não sou uma delas. Procuro, sempre que possa, a fuga ao que se possa estar a tornar normal. O pretexto para sair porta de casa fora e sentar-me à beira rio ou à beira mar. Para ouvir o vento, as gaivotas, e as águas falarem comigo. Subterfúgios por entre ruas desconhecidas. Amizades novas. Músicas e ritmos diferentes. Novos ventos. E por vezes... Apenas, de tempos a tempos, o vento, na direção que tem percorrido, despede-se, para anunciar a chegada de outros ventos e de novos sentidos. Como hoje, que veio bater à minha porta querendo falar comigo, na sua torcida e quase indecifrável linguagem. “Mudanças anunciam-se”, senti... E então... Revivi, naquele momento, resquícios de emoções atreladas à revivescência de memórias e de momentos tão efémeros quanto a fase da minha vida que agora se depõe. Eu sabia que este seria um ano de mudança, mas não pensei que viesse tão cedo. Na verdade... tudo me chama lá fora... E o meu corpo responde com o impulso de seguir as folhas levadas pelo vento. Quando fechei a janela e, de dentro, vi o vento percorrer as terras onde cresci, soube que virão aí boas novas.
   Se algum dia me transformar em vento, seríeis capaz de me encarar como aquela essência indomável que a natureza quer junto de si, e me perdoar por me ter ido embora?
 

 

 

 

 

 
 

 

Julho 30, 2018

Beatriz

   Antes Cristo, Confúcio já dizia: “ Não podes mudar o vento, mas podes ajustar as velas do barco para chegares onde queres.”
 
   Enquanto se soltam as amarras que prendem o navio ao cais, chovem flores, lágrimas e saudades antecipadas. Discorrem, em cenário tão saudosista, peças de vida como novelas da vida real. Ficções da tua mesma mente. Vai, solta-te navio da natureza, percorre o mundo pelos grandes oceanos desta terra, e que, na iminência de tempestades, te encalces na tua força e resistência, nessa tua essência de leão indomável. Que o passado, vago mistério que jaz no cais que por ora abandonas, em memórias sépia seja tornado. Fechado dentro de uma caixa, guardado nas tuas profundezas, como mais um dos mistérios que de ti faz um livro de histórias que para sempre ficam por contar. E que as feridas que, por ora se abrem, se fechem na mesma medida da tua grandeza. E assim despedem-se eles de ti, barco, com lenços de pano branco, bordados com a dor da despedida, com a saudade adiantada, o precoce desamparo e insegurança da ausência de cais. Mas que partas. Que nenhum lar é merecedor da eternidade. A mudança é tão necessária à vida como o ar para os nossos pulmões. Como o amor, realidade agora longínqua, tão mais que o cais de que te acabas de separar. Jaz agora, entre vós, as lágrimas daquele oceano; e, por baixo, os fantasmas das tuas profundezas. Tuas, que são minhas.
   A vida repete-se.
   Avança barco.

 

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